A aldeia da minha vida é o Sabugueiro, lá no alto da serra, um sítio que lá no fundo me diz muito. Me diz tudo. É de lá que eu sou e é para lá que eu vou sempre que posso. Um lugar de onde parti mas para onde volto quase todos os dias para matar saudades dos pequenos nadas que faziam e fazem a minha felicidade.
É lá que me encontro e desencontro, nesse recanto de reencontro de cores e sentimentos.É para lá que eu volto à cata das origens, dos lugares onde fui feliz, com nada e por nada. Uma terra bela todo o ano. E não é por ser de lá que o digo, mas digo e afirmo, este é um lugar alto entregue de mansinho, às quatro estações do ano que dá gosto usufruir.
No Inverno apresenta-se de um cinzento granítico, que a paisagem emoldura, por entre verdes de giestas e castanhos da terra amanhada em courelas desenhadas no redor do casario. De vez em quando o branco da neve desce ao povoado, e no silêncio que o frio embala, eleva-se o ar forte e pesado, convidando o visitante a pernoitar num dos vários alojamentos da aldeia e a percorrer os labirintos que levam a novas descobertas, fora do asfalto.
Pintada de muitas cores todo o ano, a Serra da Estrela resplandece na Primavera, com o seu mais verde inebriante, onde mil flores florescem, por entre musgos da montanha e maias de giestas e urzes e narcisos e zimbros e sargaços e tantas outras espécies da flora serrana. Quanto alimento para um delicioso mel! E nos pastos que as encostas têm, pode ainda ver-se o gado que pascenta, do qual se faz queijo e queija, qual iguaria que vai à mesa com pão e vinho.
O Verão atrai ainda mais do que o Inverno, pelo encanto das veredas, nos caminhos que levam à descoberta, com a curiosidade sempre em riste. E há a frescura do rio, para mergulhos de felicidade e nascentes da água que brota e fontes, poços e lagos que se espraiam em rios e ribeiras. Outrora nos montes, dançavam amarelas espigas de centeio, que deram lugar a novas paisagens e atractivos deslumbramentos entrecortados por novos sons da montanha.
No Outono, no castanho das castanhas, há encantos que levam a novas descobertas. Pelos campos escarpados, em socalcos, deixamo-nos levar nos caminhos que contam histórias. Dos da transumância, como que a anunciar o Inverno; dos carreiros por onde os animais carregavam o peso das sementeiras; das levadas de regadio comunitário; das pontes e pontões e tudo o mais a descobrir.É assim, na aldeia da minha vida, a dois passos do céu, lá no alto, nessa imensa serra, que além disso é enigmática e se veste de mil cores, para baralhar ainda mais a atenção de quem vem ver e sente vontade de voltar.
É assim que a vejo e ali me revejo, a brincar no preto da terra onde se semeia o centeio ou no branco da neve onde se desliza nessa imensa encosta de felicidade, mas de onde parto também milhentas vezes com sede de cidade.
Escrito por: Mário Jorge Branquinho Junho / 2009
Sabugueiro/ Concelho de Seia/ Distrito da Guarda
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