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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O CHEIRO DO NATAL

(imagem tirada da Internet)

A proximidade do Natal, na minha terra, cheira a "cachiço" que desde a vindima fermenta para agora, misturado com o cheiro da madeira mais dura, arder no alambique que o transforma na cáustica aguardente; é o seu cheiro acre que inunda quem passa pelas ruas de xisto e que se mistura com o cheiro das hortas cuja terra a chuva molhou. É Natal quando as árvores despidas ou amarelecidas da aldeia lhe dão um tom invernal que apela a fumos de lareiras e algum aconchego. É Natal quando nas casas de famílias numerosas se ouve o chocalhar alegre das vozes reunidas que comungam dos comeres e doces típicos da quadra. É um Natal mais terno o das famílias pequenas que já viram partir os crescidos, os velhos, chorados interiormente, por entre sorrisos de festividade. É Natal na minha terra quando as fragas já escorregam de tanta chuva receberem, de regatos e ribeiros que lhe passam por cima e onde o musgo, à volta, verdinho, pede para ser recolhido e adornar o presépio sagrado. O Natal na minha terra cheira a pinheiros ardidos nas lareiras e a molhos de alecrim e oliveira bentos no domingo de ramos anterior. Cheiraria a rosmaninho e a fogueirão se o Deus Menino se tivesse lembrado de cá nascer, no nosso Verão, ou a castanhas assadas ou mosto, se o fora no Outono. Aproveitaria ainda as chuvas após grande calor, que deixa a terra a terra e a floresta espirrarem o seu aroma molhado, como não há igual.

O Natal é quando, em puro gesto de oferenda se diz: "Ó cachopa, vai lá ao meu quintal e leva uns baldes. Há por lá tanto tomate e pimento que não consumo aquilo tudo. Apanha para comer e congelar. Vai também às couves!"; ou quando se vai às "coirelas"e se apanham os melhores frutos e legumes para deixar na casa de uma amigo ou conhecido, pois a fartura é muita e deseja-se partilhar; ou quando se faz um bom queijo de leite de ovelha e cabra e se o oferece a alguém que não teria outra oportunidade de provar aquela iguaria caseira e natural; também quando nos lembramos de gente escarninha que nada nos merece, e desejamos que tenha plácidos dias; ou quando há festejos e levamos um pratinho com todos os doces à vizinha que nos acarinha; ou ainda quando oferecemos o melhor sorriso e bom dia a quem quer que seja; ou quando nos desdobramos para fazer o melhor em qualquer causa, vestindo essa camisola, como se não houvesse outra. É Natal sobretudo quando seguro e encho o colo com os meus filhos que não possuo...

Bom Natal para todos!


Escrito por Luciana Serra, do blog De pedra e cal
A versão completa do texto encontra-se no respectivo blog.


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