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sábado, 10 de abril de 2010

A PÁSCOA DA AZORIANA


Não! Desta vez, não vou rimar a Páscoa da luz com as trevas da Quaresma. Desta vez, apetece-me contar linhas de lembranças de outras eras muito mais pacatas do que as de agora…

Era uma vez… uma menina de estatura avantajada para a idade, cabelos tapados por uma espécie de mitra, um vestido tipo túnica bordada que mais parecia o traje de um pároco, e … umas “asinhas”, tal qual as dos anjos, presas com uma fita que ficava escondida debaixo da tal veste própria de um “anjinho da Quaresma”, que também levava na mão uma das ferramentas do Calvário de Jesus. Nessa Procissão da Senhora da Soledade e do Cristo Flagelado, não lembro, ao certo, se levei sempre a escada, ou o martelo, ou outra ferramenta feita ao tamanho da idade infantil, mas que, para mim, não era sacrifício nenhum, não era não!

E porquê? Aqui, entra a parte melhor: a minha Páscoa. Imagine-se, depois de percorridos os quadros da Via-Sacra, incorporados nas paredes das casas ou nos muros da freguesia natal, com aquele traje simbólico penitente, regressar ao ponto de partida e subir os degraus do actual Santuário Mariano, para entrar com algum cansaço da missão cumprida e receber das mãos de quem estava preparado para entregar um cartucho (uma espécie de funil feito de papel) com amêndoas e os “confeitos” (doce específico da ilha) com um naco de funcho para o paladar nos elevar o pensamento à beleza da nossa terra, onde as sementes são colocadas, aqui e ali, pelos pássaros que sobrevoam, alegres e pacíficos, as freguesias (o mesmo que aldeias) onde residem corações palpitantes de euforia por um pedaço de folar acabadinho de sair do forno de lenha…
O meu martírio de toda a vida foi não me ser aconselhado comer estes belos pedaços de massa doce, com nome típico para cada festividade, que, neste caso, sendo confeccionado nas proximidades da Páscoa, faziam as delícias dos mais novos e dos mais velhos, conhecedores da arte culinária de excelência, abundância e premiada com os açucares dos deuses. E Jesus ressuscitava ao 3º Dia, e aí sim, era a Festa da Luz… E as crianças eram as primeiras a serem premiadas.

Hoje, queria ser aquele “anjinho” puro e bem trajado, obediente… Hoje, a «Páscoa da minha Aldeia» está distante geográfica e religiosamente. Revejo-a no olhar dos meus filhos e no pedido original: “Mãe, trouxeste amêndoas?”. Ah, já não me pedem confeitos? Nem sequer bolo dos meus anos…

Escrito por Rosa Silva, "Azoriana"
 
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quarta-feira, 10 de março de 2010

EM FRENTE AO MAR... ASSIM CRESCEU O MEU PAI

(o meu pai, minha mãe, irmã, avó materna e eu)

Para ser exacta, não lembro se o meu pai nasceu em casa, num quarto onde pais e filhos eram brindados por uma aurora com cânticos e baladas do mar, se nalgum outro local com assistência de parteira ou outro ajudante com curso superior. Estou mais inclinada para o primeiro pensamento: naquele tempo (02/12/1929) os dias eram, forçosamente, muito diferentes do que se apresentam na actualidade regional e nestes pedaços de terra rodeada de águas que bailam com a tonalidade reflectida de tons variáveis consoante há negrume, cinzentos ou claridade azulada de frescura.

Os ilhéus e ilhoas sempre nasceram em berços de harmonia com a natureza e com o mar numa balada de afecto pela vinda de mais um ser para frutificar descendência suficiente para continuar o seu "eu" fortemente enraizado por costumes e tradições, diferentes consoante o local de nascimento e/ou o valor que se dá às coisas com um toque de crença em algo superior a nós. Na mitologia romana, Neptuno é o deus do mar e, na freguesia de Santo Amaro, esse deus é a brisa que domina a potência gigantesca de aromas inconfundíveis. Santo Amaro é o padroeiro que apazigua alguma revolta espumante em dias de tempestade.

O meu pai cresceu à beira-mar, na freguesia marítima, de homens do mar, de construtores de barcos e lanchas, do estaleiro onde saíram tábuas talhadas com amor e suor marinheiro. Saudade é a palavra-chave que se mantém de geração em geração junto de lembranças e histórias passadas de boca em boca para que os mais novos não esqueçam o valor dos antepassados.

Lembro que meu pai contava que, às vezes, dava mergulhos profundos no mar que, constantemente ouvia, no seu canto pautado de vida, e que aguentava algum tempo nas suas profundezas, ora por prazer ora por necessidade, e que as pessoas interrogavam-se, entre si, se algo lhe havia sucedido para não voltar à superfície... e, passado um bocado, lá vinha ele fora de água, feliz pelo feito quase impossível de imitar, sobretudo para quem não domina esse grande charco de água temperada do sal que abriga os peixes, algas, moluscos, crustáceos, corais e o fascínio do abismo de uma beleza natural extraordinária. É assim o paraíso marítimo onde alguns tem a sorte de nascer e outros têm o azar de naufragar. O seu fim não foi no mar mas, acredito, que a sua alma o canta para sempre. (Aos nove anos do seu último adeus)

Escrito por Rosa Silva, do blog “Azoriana”

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O CARNAVAL NA TERCEIRA

Mal acaba o Natal
Na nossa ilha Terceira
Começa o Carnaval
A tomar a dianteira.

Os poetas populares
Com assuntos de encomenda
Improvisando nos lares
Vão recheando a agenda.

São as Danças e Bailinhos
Com cantigas a preceito:
Na Saudação, carinhos;
No Assunto, riso a eito.

Depois vem a Despedida
Ensaiada em ritual:
Grande alegria tecida
Por rimas de Carnaval.

Quando chega a altura
Sai a Festa radiante:
Toda a ilha é cultura
Pelos Palcos adiante.

Mui recheadas as mesas:
Bolos, filhós, coscorões,
Alegria e gentilezas
Enfeitam nossos Salões.

Lembro que desde pequena
Corria pla freguesia
Na senda de qualquer cena
Colorida de fantasia.

Um louvor às costureiras,
Aos cantores e bailarinos,
Aos músicos e às carreiras
Que transportam tantos hinos.

Os ensaios são momentos
De convívio e euforia;
Estão sempre bem atentos:
Pé de dança e cantoria.

Por cá tudo é original
Não há semelhança alguma
Com outro Carnaval
E Terceira só há uma!

Escrito por Rosa Silva, do blog Azoriana
 
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