Não! Desta vez, não vou rimar a Páscoa da luz com as trevas da Quaresma. Desta vez, apetece-me contar linhas de lembranças de outras eras muito mais pacatas do que as de agora…
Era uma vez… uma menina de estatura avantajada para a idade, cabelos tapados por uma espécie de mitra, um vestido tipo túnica bordada que mais parecia o traje de um pároco, e … umas “asinhas”, tal qual as dos anjos, presas com uma fita que ficava escondida debaixo da tal veste própria de um “anjinho da Quaresma”, que também levava na mão uma das ferramentas do Calvário de Jesus. Nessa Procissão da Senhora da Soledade e do Cristo Flagelado, não lembro, ao certo, se levei sempre a escada, ou o martelo, ou outra ferramenta feita ao tamanho da idade infantil, mas que, para mim, não era sacrifício nenhum, não era não!
E porquê? Aqui, entra a parte melhor: a minha Páscoa. Imagine-se, depois de percorridos os quadros da Via-Sacra, incorporados nas paredes das casas ou nos muros da freguesia natal, com aquele traje simbólico penitente, regressar ao ponto de partida e subir os degraus do actual Santuário Mariano, para entrar com algum cansaço da missão cumprida e receber das mãos de quem estava preparado para entregar um cartucho (uma espécie de funil feito de papel) com amêndoas e os “confeitos” (doce específico da ilha) com um naco de funcho para o paladar nos elevar o pensamento à beleza da nossa terra, onde as sementes são colocadas, aqui e ali, pelos pássaros que sobrevoam, alegres e pacíficos, as freguesias (o mesmo que aldeias) onde residem corações palpitantes de euforia por um pedaço de folar acabadinho de sair do forno de lenha…
O meu martírio de toda a vida foi não me ser aconselhado comer estes belos pedaços de massa doce, com nome típico para cada festividade, que, neste caso, sendo confeccionado nas proximidades da Páscoa, faziam as delícias dos mais novos e dos mais velhos, conhecedores da arte culinária de excelência, abundância e premiada com os açucares dos deuses. E Jesus ressuscitava ao 3º Dia, e aí sim, era a Festa da Luz… E as crianças eram as primeiras a serem premiadas.
Hoje, queria ser aquele “anjinho” puro e bem trajado, obediente… Hoje, a «Páscoa da minha Aldeia» está distante geográfica e religiosamente. Revejo-a no olhar dos meus filhos e no pedido original: “Mãe, trouxeste amêndoas?”. Ah, já não me pedem confeitos? Nem sequer bolo dos meus anos…
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